Porque a série sobre Michael Jordan estimula o pior da nossa geração



Há alguns meses estreiou no Netflix a série que conta a saga de um dos maiores times de basquete, Chicago Bulls, e sua trajetória em busca de mais um título da NBA. A série mostra todo o suor e as lágrimas dos maiores astros que o esporte já teve, assim como todo o sacrifício e dedicação abnegada de um dos maiores esportistas de todos os tempos: Michael Jordan. É interessante ver a história pessoal dos ídolos, principalmente de Dennis Rodman, que evoluiu de um garoto tímido,  abandonado pela mãe e potencial suicida, para um bem-sucedido jogador com tempertamento forte e personalidade tão excêntrica quanto carismática.

O documentário consegue captar o espírito de equipe e a ambição que movia a todos, e não refuta em nenhum momento o quanto o entrosamento dos jogadores e a fina maestria do técnico Phil Jackson em conduzir grandes egos,  contribuiram para os 6 títulos. E ai começa a importante questão: o que move as pessoas a objetivos incríveis e superação constante e quais os efeitos colaterais dessa motivação desmedida.

Michael Jordan se tornou uma lenda não só por suas habilidades esportivas, mas, principalmente, por sua disciplina espartana e talvez um dos seres humanos com maior foco e garra já vistos. Suas horas de treino eram insanas, sua cobrança interna gigante e sua crença no auto-aprimoramento beirava a insesatez. Tanto que ele acreditou ser possível repetir sua façanha em outro esporte, o beisebol. Com o fraco desempenho, Michael voltou para as quadras ainda mais sedento.
Um dos pontos altos do documentário é explicar essa fúria canalizada para o esporte. Depoimentos do pai de Michael mostram que a rivalidade entre ele e o irmão mais velho, estimulada pelo pai, fizeram florescer sua personalidade competitiva e determinada. O pai sempre desdenhava dos seus feitos e enaltecia o irmão, o que gerou em Michael uma frustração tão grande que foi capaz de moldar sua auto-estima. A necessidade a aprovação do pai foi seu primeiro combustível, mas algo dentro dele foi tão profundamente atingido, que seu senso de valor tornou-se primordiamente suas conquitas e capacidade de realização.

Suas qualidades em sido extramemente enfatizadas e suas persistência é de fato gloriosa, mas talvez devessemos prestar mais atenção aos nossos ídolos. Fora das quadras Michael sempre teve comportamento exemplar, nunca se envolvendo com drogas ou confusões. Sua vida familiar foi estável, tendo permanecido casado com a mesma mulher durante anos. Porém, talvez o que devessemos nos atentar é até que ponto esse tipo de ídolo nos faz adotar comportamentos prejudiciais a nós mesmos e aos que nos rodeiam.

O auto-aprimoramento e a busca de sonhos e realizações nunca foram um discurso tão intenso como agora. Somos uma geração com mais anos de estudos que qualquer outra, gastamos mais horas nos exercitando, lemos auto-ajuda no café da manhã e nos comparamos com pessoas bem-sucedidas o tempo todo, seja no Linkedin ou no Instagram. Nosso senso de valor para a sociedade está totalmente vinculada à nossa capacidade de realização. Não sabemos mais se queremos casar ou ter filhos, isso foi resolvido pela geração anterior e a liberação sexual. Mas sabemos em quanto o status influencia em nossas vidas: da pergunta do que você faz no primeiro encontro ao nivelamento social que sofremos em qualquer ambiente social.

Como diria o filósofo Byung-Chul Han nos tornamos empreendedores de nós mesmos, predominando a mensagem de que nossa ação deve ser sempre produtiva e que todas as metas são alcancáveis Almejamos o destaque as custas de nossas relações, de nossa saúde física e mental e principalmente, as custa de nossa autenticidade. São poucos os que buscam objetivos como um fim em si mesmo, buscando atender em primeiro lugar um desejo próprio e verdadeiro. Quase sempre busca-se algo que está muito além de nossas capacidades e realidade para se adequar ao externo. As métricas são feitas para impressionar e não para nos satisfazer e realizar.

Os gurus modernos são experts em produtividade em todos os níveis, e a nova onda é a busca por dietas e rotinas hiperrígidas que ditam acordar antes das 4h ou tomar banho em banheiras com gelo. Mas todo essa busca pela maximização do tempo tem gerado um fênomeno curioso: a síndrome de Tim Ferris. Um dos principais gurus atuais, Tim Ferris testou diversos hacks de produtividade e adota as práticas mais árduas e insanas possíveis, porém um fator crucial torna-se importante: Tim Ferris nunca realizou nada realmente significativo. Seus livros ensinam como trabalhar menos horas fazendo mais, como aprender coisas mais rápido ou conselhos de pessoas bem-sucedidas. Mas o mais incrível é que os feitos de Tim Ferris são: entrar no Guiness Book como dançarino de tango, vencer um campeonato nacional de kickboxing na China apelando para o regulamento, dançar break e apresentar um programa de TV em Hong Kong e outros feitos. Muito produtivo, pouco significativo.

O que nos leva a uma questão chave: o que significa ser bem-sucedido? Aos olhos da sociedade acumular capital, entrar para o Guiness Book ou ter destaque em qualquer área parece um bom indicativo de sucesso. Porém, pessoalmente o que isso significa? Além da peculiaridades individuais podemos tentar chegar a um ponto comum às pessoas que se sentem realizadas: elas querem continuar indefinidamente em suas atividades. Pessoas bem-sucedidas, não importa a métrica externa, são aquelas que não querem se aposentar, que aproveitam suas férias mas ficam doidas pra voltar e que conciliam suas agendas com atividades não relacionadas ao trabalho. Querem ser melhores que ontem e não melhores que os outros, querem ter outros papéis na vida que não só o de profissionais, não têm medo da concorrência pois sabem que o adversário eleva o jogo, não buscam o crescimento exponecial mas o orgânico. Pessoas realmente bem-sucedidas querem continuar no jogo e não bater uma meta e passar para o próximo desafio.  São os corredores que sentem prazer na corrida e não apenas a adrenalina da vitória, são os empreendedores que constroem negócios para a vida e não para vender, são os profissionais que se importam verdadeiramente com seu trabalho e não apenas com suas carreiras.




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